Toymania Brinquedos

PIRATAS QUE NÃO SÃO DO CARIBE

Por Marcelo Volcato

Recentemente dois colecionadores que conheço discutiram através do Mercado Livre por causa de uma figura de um índio. O vendedor afirmava que a figura era Gulliver (e rara), e o outro replicava dizendo que tratava-se de uma pirataria, uma cópia barata de uma figura original Britains Deetail... Quem tinha razão? Nesse caso ambos.

Pirataria. O assunto é interminável e, portanto, para não abusar da paciência de ninguém, vamos nos limitar a uns poucos casos ilustrativos das diversas modalidades de pirataria no mundo dos soldadinhos. Quando um escultor termina seu trabalho o fabricante prepara o molde que será usado para a fabricação dos soldadinhos. No mundo dos soldadinhos a propriedade dos moldes corresponde ao direito de obter cópias daquela figura. Toda e qualquer infração pode (mas raramente é) acompanhada por um processo legal. Existem diversas formas de pirataria. 

(Caso 1): Cópia de figura a partir de outra. É simples. O fabricante decide fazer um molde a partir de um soldadinho adquirido por ele. Vamos a um exemplo. O mexicano da Crescent (à esquerda da foto abaixo) fez muito sucesso nos anos 60, em um set que tinha seis figuras de mexicanos. O menorzinho (à direita) é uma cópia pirata descarada “Made in Hong Kong!” Esse tipo de figura é facilmente reconhecida por ser ligeiramente menor que o original (além dos braços desproporcionalmente grandes, nesse caso). Os detalhes do rosto do mexicano também são bem nítidos no original e meio "borrados" na versão pirata. Esse tipo de pirataria é o mais comum, e mais freqüentemente acaba na justiça. Vejam abaixo: 

(Caso 2): Figura "inspirada" por outra. Nesse caso um fabricante "homenageia" um outro copiando não a figura, mas a pose! Nos anos 90 quando a Conte Collectibles começou a assombrar os colecionadores com a qualidade de suas figuras, ficou evidente que muitas de suas poses tinham sido copiadas de antigos soldadinhos da Marx Toys. Reparem nesses dois Vikings. O da Marx (à esquerda) está em uma pose muito específica, com a espada atrás da cabeça e o escudo paralelo ao corpo. O soldadinho Conte repete a pose! Reparem, que apenas a posição do pé esquerdo muda ligeiramente! O que isso quer dizer? Simples! Ao esculpir as figuras o escultor realizou seu trabalho sobre os antigos soldadinhos da Marx...Vejam abaixo:

(Caso 3): Figura copiada de uma gravura ou foto conhecida. Esse é o caso desse pirata "Made in China". Reparem na famosa gravura de Howard Pyle. Não resta a menor dúvida que o escultor se baseou nela para fazer seu trabalho. Howard Pyle foi o maior ilustrador de livros de piratas do início do século XX. Suas ilustrações estão em milhares de edições no mundo todo, não deve ter sido difícil encontrá-la para servir de "inspiração". O problema é que as gravuras dele têm dono! O copyright delas não é mencionado no soldadinho, portanto: Pirata! Nada mais justo, aliás: Um pirata de pirata! Vejam abaixo: 

Agora vejam os três casos abaixo:  

4) Os índios. Esses dois índios são versões piratas de um famoso índio da Britains Herald. O da esquerda é a figura que foi lançada por três diferentes fabricantes brasileiros (Casablanca, Gulliver e Troll) O da direita é um pirata (muito feio por sinal) "Made in Argentina". O detalhe irônico é que esses índios Britains Herald estão entre as figuras cujos moldes pertencem legalmente à fábrica Argentina DSG. Um legítimo caso de pirataria entre vizinhos.

Vejam abaixo, índios da Gulliver (esq.) e pirata argentino (dir.):

5) Os medievais. À esquerda temos uma figura clássica Elastolin. Fabricada durante décadas na Alemanha, essa figuras maravilhosas foram extensivamente copiadas pelo mundo afora... Nesse caso aí (o da direita) pela Gulliver! Que em meados dos anos 70 lançou uma série chamada "Cavaleiros do Rei Arthur". Um detalhe interessante que ajuda a diferenciá-los (se alguém não perceber diferença na qualidade da pintura!) é que a espada do original é removível, na cópia é parte integrante do molde. Vejam abaixo:

6) Os mexicanos. À esquerda um mexicano Britains Deetail dos anos 70, a pintura é bem simples, usando a técnica do "wash" em quase toda a roupa. A base é a metálica tradicional dessa fábrica que já discuti num artigo para a Galeria dos Brinquedos. À direita a versão que a Gulliver lançou no início dos anos 80 (e não anos 70 como dizem os espertinhos que querem conseguir um melhor preço). Curiosamente a pintura é mais caprichada do que no original, mas claro, a Britains Deetail nunca se notabilzou pela qualidade da pintura de suas figuras. Esse mexicano é da mesma época que o índio do anúncio do Mercado Livre, e é verdade, eles são raros! Mais que os Britains Deetail que lhes serviram de molde. Vejam abaixo:

É isso! E cuidado quando for comprar um cowboy ou índio por aí. Ao invés dessas figuras há boas chances de você acabar comprando um pirata!